O caminho dos resíduos na transição para a economia circular

É tentador querer realizar mudanças olhando para frente. Novas metas, novos processos, novas tecnologias. Mas, na prática, uma mudança raramente acontece como um salto. Se na vida de um indivíduo não é tão simples, imagine para uma empresa que pensa em mudar de uma economia linear para uma circular?

Na gestão de recursos e resíduos, o passado pesa. Infraestruturas existentes, decisões antigas, contratos, relações com fornecedores, hábitos organizacionais e até a cultura local influenciam diretamente o que pode ou não ser feito hoje. Ignorar esse histórico costuma ser uma das razões pelas quais boas intenções circulares ficam pelo caminho.

É a partir dessa constatação que um grupo de pesquisadores – Minelle E. Silva e colaboradores – ligados a Plataforma I do CCD-Circula Desenvolveu e publicou o artigo “Shaping supply chain circularity trajectory: the role of path dependence”

O caminho dos resíduos: como a circularidade se constrói ao longo do tempo

Em uma tradução literal do título do artigo, temos: Moldando a trajetória da circularidade da cadeia de suprimentos: o papel da dependência da trajetória. Mas, para além do nome acadêmico, a pergunta que moveu os pesquisadores foi bastante concreta: como a circularidade se constrói ao longo do tempo dentro de uma cadeia produtiva real?

Para responder a isso, o grupo decidiu olhar para um caso específico. O estudo se concentrou em uma das maiores cooperativas do setor de proteínas animais do Brasil, reconhecida por seus esforços em sustentabilidade, com histórico de prêmios e iniciativas nessa área, o que despertou o interesse dos pesquisadores. No artigo, ela é identificada como “Cooperativa A”. 

Uma Cooperativa que carrega décadas de decisões

Fundada na década de 1960, no Sul do Brasil, a “Cooperativa A” reúne 11 pequenas cooperativas, organizadas em uma estrutura complexa que inclui dezenas de unidades produtivas e comerciais espalhadas por diferentes estados, centros logísticos e uma sede administrativa. Suas atividades vão muito além de um único produto. Envolvem o abate, a industrialização e a comercialização de aves e suínos, a produção e venda de leite e derivados, a fabricação de rações e a comercialização de alimentos processados.

Estudar o passado para entender o presente

Os pesquisadores conversaram com gestores e tomadores de decisão, analisaram documentos internos, relatórios anuais, materiais de treinamento, vídeos institucionais e registros históricos.

Foram horas de entrevistas e centenas de páginas de documentos analisados para mapear eventos-chave, mudanças organizacionais e decisões que moldaram a forma como a “Cooperativa A” lida com recursos, resíduos e circularidade. 

O trabalho dos pesquisadores permitiu entender não apenas o que a “Cooperativa A” faz hoje, mas como decisões acumuladas ao longo do tempo moldaram a forma como ela lida com recursos, resíduos e circularidade.”

Para uma economia circular várias decisões são necessárias

Imagine uma empresa que decide reduzir seus resíduos e aumentar o uso de materiais reciclados. No papel, a estratégia parece simples. Mas, ao tentar colocá-la em prática, surgem perguntas difíceis:
Quem já faz parte dessa cadeia?
Como os materiais circulam hoje?
Quais relações estão estabelecidas entre produtores, cooperativas, indústrias e comunidades?

Essas perguntas revelam algo importante: a economia circular não acontece apenas no fluxo físico dos materiais, mas nas relações que sustentam esse fluxo. 

É isso que a pesquisa chama de dependência da trajetória. Em termos simples, significa reconhecer que decisões passadas moldam as opções disponíveis no presente. Algumas escolhas criam caminhos mais fáceis para a circularidade. Outras geram barreiras difíceis de contornar.

Olhar para a cadeia como um sistema vivo

No caso analisado, a chamada cadeia de suprimentos não é vista apenas como uma sequência de etapas produtivas. Ela é entendida como um sistema vivo, formado por pessoas, organizações, regras, acordos e práticas que conectam produção, indústria, mercado e comunidade.

Nesse sentido, a cadeia de suprimentos inclui:

  • produtores e organizações cooperativas;
  • indústrias de processamento;
  • estruturas de governança e tomada de decisão;
  • relações de cooperação e engajamento entre os atores;
  • vínculos com o território e com a comunidade local.

Nesse sistema, a circularidade não depende apenas de tecnologias ou de novos materiais. Ela emerge quando há cooperação, engajamento e aprendizado contínuo entre os atores envolvidos. 

Essa perspectiva ajuda a explicar por que algumas cadeias conseguem avançar mais rapidamente na circularidade, enquanto outras enfrentam dificuldades, mesmo com acesso a tecnologias semelhantes.

O que isso ensina para empresas que querem ser mais circulares

Ao longo da trajetória analisada, os pesquisadores identificaram uma transição gradual de ações mais lineares para práticas cada vez mais circulares. Esse movimento não ocorreu de forma abrupta nem a partir de uma única decisão estratégica, mas como resultado de aprendizados acumulados, investimentos incrementais e do fortalecimento de capacidades organizacionais ao longo do tempo.

Para quem atua em empresas e busca incorporar a economia circular, a principal mensagem do estudo é clara: antes de importar soluções prontas ou replicar modelos externos, é preciso entender a própria trajetória. A circularidade se constrói a partir da realidade existente, e não apesar dela.

Isso envolve mapear:

  • como os materiais circulam hoje dentro da organização e da cadeia;
  • quais relações sustentam esse fluxo, entre fornecedores, parceiros e clientes;
  • quais decisões do passado ainda influenciam o presente;
  • quais capacidades já existem e quais precisam ser desenvolvidas.

Esse exercício ajuda a transformar a economia circular em um processo viável, conectado à prática cotidiana da empresa, e não apenas em um objetivo distante.

A ciência como ferramenta para orientar a transição

É nesse ponto que a pesquisa desenvolvida no âmbito dos Centros de Ciência para o Desenvolvimento ganha relevância. Ao direcionar o olhar científico para um dos desafios centrais da atualidade, a transição da economia linear para a circular, esse modelo de pesquisa produz conhecimento capaz de orientar decisões práticas.

Ao reunir evidências de que a circularidade se forma ao longo do tempo, moldada por decisões, relações e aprendizados acumulados, a pesquisa em desenvolvimento no CCD-Circula oferece subsídios importantes para a construção de estratégias de transição para empresas e para a sociedade.

Referência

Silva, M. E.; Pereira, S. C. F. and Sehnem, S. Shaping supply chain circularity trajectory: the role of path dependence. The International Journal of Logistics Management, 2025.