
Todos os dias, milhares de refeições são distribuídas nas escolas públicas do estado de São Paulo. Por trás desse sistema existem caminhões, centros de distribuição, embalagens, cardápios e, no final do processo, resíduos. Como tudo isso funciona na prática?
O projeto intitulado “Otimização do sistema de embalagem para alimentação escolar – Estudo de caso”, conduzido no CCD Circula, integra a plataforma 4 (Tecnologias de reuso e reciclagem) e mergulha no universo da alimentação escolar no estado de São Paulo para entender e aprimorar seus processos.
Em entrevista à nossa equipe, a pesquisadora Amanda Maia, pós-doutoranda no Centro de Tecnologia de Embalagem (Cetea), do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), em Campinas, apresentou-nos como o projeto ganhou vida e como a pesquisa revelou resultados surpreendentes.
Parceria estratégica com a Educação
Idealizado pelo Cetea/Ital, o estudo partiu de uma colaboração com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP). Inicialmente com foco apenas na capital, a equipe percebeu a necessidade de ampliar o horizonte. “A gente saiu do município de São Paulo para o estado inteiro. Hoje, o projeto conta com todo esse cenário, então a gente tem um bom embasamento de como acontece em todo o nosso estado“, explica Amanda.
Essa expansão permitiu uma análise muito mais completa, abrangendo desde a aquisição e armazenamento até a distribuição dos alimentos. A seleção das escolas visitadas foi criteriosa, garantindo uma amostra representativa que incluísse todos os níveis de ensino (Fundamental I e II, Médio e Educação de Jovens e Adultos – EJA), diferentes tipos de cardápios e períodos de funcionamento (diurno, noturno e integral).
Os três pilares da pesquisa
O estudo foi estruturado em três grandes áreas para uma análise detalhada e multifacetada da cadeia de alimentação escolar. A primeira, “Logística e Distribuição”, sob a responsabilidade do pesquisador Thiago Dantas (Cetea/Ital), focou em investigar a eficiência do transporte, aquisição e armazenamento dos alimentos.
A segunda área, “Otimização de Embalagens”, conduzida pelo pesquisador Fábio Teixeira (Cetea/Ital), teve como intuito avaliar se as embalagens utilizadas garantiam a qualidade e a segurança dos alimentos até o momento do consumo. Por fim, a terceira frente, a “Gestão Ambiental de Resíduos”, liderada pela própria Amanda Maia, analisou a geração e o descarte de resíduos, tanto no centro de distribuição quanto nas escolas, na fase de pós-consumo.
> A complexa jornada do vidro no Brasil: entre a decepção e a esperança
Surpresas e desafios: os resultados
As descobertas do projeto trouxeram tanto alívio quanto inquietação. Na área de logística, a equipe ficou positivamente surpresa com o centro de distribuição em Cajamar. “O cenário era impressionante”, relata Amanda, destacando a excelente organização do local.
Na frente de otimização de embalagens, a análise comparativa entre os produtos fornecidos pela Seduc e os adquiridos em supermercados mostrou que as embalagens da secretaria do Estado de São Paulo atendem aos padrões de qualidade necessários para a conservação dos alimentos.
Contudo, o pilar da gestão de resíduos revelou uma realidade preocupante. Cerca de 50% das escolas pesquisadas admitiram não realizar a separação de resíduos. A principal justificativa é a ausência de um serviço de coleta seletiva na região onde estão localizadas. “A gente se deparou com uma realidade que deixou a gente um pouquinho preocupado”, confessa a pesquisadora.
> CCD Circula realiza seminário sobre educação para a Economia Circular
Rumo a um futuro mais sustentável
Diante desse desafio, a equipe do projeto está agora focada em entender como incentivar e viabilizar a separação de resíduos nas unidades escolares, começando pela divisão básica entre recicláveis, orgânicos e outros resíduos, conforme a legislação.
Em colaboração com a Secretaria da Educação e a diretoria do CCD Circula, os pesquisadores buscam definir os passos mais adequados para dar continuidade ao projeto. O objetivo é claro: encontrar formas assertivas de melhorar a gestão de resíduos e, assim, gerar um impacto positivo duradouro para toda a comunidade.
“Espero que esse projeto faça diferença aí pra comunidade como um todo”, finaliza. A iniciativa do Cetea/Ital é um exemplo claro de como a pesquisa aplicada pode identificar gargalos e propor soluções práticas para problemas complexos e de grande relevância social e ambiental.
Projetar embalagens adequadas, organizar a logística e melhorar a gestão dos resíduos são partes essenciais para que a economia circular funcione na prática. Assista à pesquisadora Amanda Maia explicando como esse projeto ajuda a transformar diagnóstico em ação.
