
Você sabia que o vidro é um material 100% reciclável, que pode ser transformado infinitas vezes sem perder sua qualidade? Em teoria, cada quilo de caco poderia gerar um quilo de vidro novo, num ciclo perfeito de economia circular. Contudo, a realidade no Brasil é bem mais complexa.
Apesar do potencial, o país ainda enfrenta baixas taxas de reciclagem, um reflexo de desafios que vão da logística reversa em um país continental aos altos custos de coleta, passando pela contaminação por outros materiais e pela concentração de plantas recicladoras em poucas regiões.
Foi para debater este cenário, entre a frustração e a esperança, que o CCD Circula promoveu o Circula Talks, reunindo especialistas como Lucien Belmonte (ABIVIDRO) e Alexandre Macário (Circula Vidro) para discutir os gargalos e as saídas para a circularidade do vidro no país.
Um cenário de contrastes
Lucien Belmonte abriu o debate com um tom crítico, expressando sua “tremenda decepção” com o fato de que, após 15 anos da Política Nacional de Resíduos Sólidos, o problema do lixo no Brasil continua sendo “varrido para baixo do tapete”. A solução, para ele, depende da cooperação entre poder público, indústria e sociedade, ressaltando que a ajuda mútua traz resultados superiores à soma dos esforços individuais.
Alexandre Macário complementou com a perspectiva da execução, afirmando que “responsabilidade compartilhada traz prosperidade coletiva”. Ele apresentou dados que, ao mesmo tempo, mostram o desafio e o progresso da circularidade do vidro no Brasil. Em 2024, o Brasil recuperou quase 600 mil toneladas de vidro, um aumento de 14% sobre 2023, atingindo um índice de reciclagem de 33% para embalagens de uso único. A meta federal é de 40% até 2032. Notavelmente, o conteúdo reciclado médio nas garrafas já alcança 36%, uma meta que estava prevista apenas para 2032.
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Os maiores desafios da reciclagem
O caminho do caco de vidro de volta à indústria é repleto de obstáculos, que foram detalhados durante o debate. Um dos maiores entraves é a logística e a geografia do país. Com 80% do consumo de vidro concentrado nas regiões Sul e Sudeste, onde também se localizam as fábricas recicladoras, o material coletado em outras partes do Brasil precisa viajar milhares de quilômetros, gerando custos elevados de transporte e emissões de carbono.
Outro ponto crítico é a contaminação do material. A qualidade do caco é crucial, e a presença de materiais como porcelana ou cerâmica pode inviabilizar lotes inteiros. Apenas 40 gramas de porcelana, por exemplo, são suficientes para contaminar uma tonelada de vidro, pois esses materiais derretem em temperaturas diferentes e comprometem a segurança da nova embalagem.
Soma-se a isso a concorrência com o aterro sanitário. Economicamente, ainda é mais barato e simples aterrar o vidro do que reciclá-lo. O custo para destinar uma tonelada de resíduo a um aterro é significativamente menor do que os custos somados de coleta, triagem, beneficiamento e transporte para a reciclagem.
A falta de conhecimento da população também é um desafio central, como resumiu Macário na frase: “estruturar é importante, mas educar é urgente”. Muitos consumidores não sabem como separar o vidro, e mesmo os que são engajados enfrentam poucos pontos de entrega voluntária. Por fim, o mercado informal de falsificação de bebidas cria uma demanda paralela por garrafas vazias, desviando um material valioso da rota da reciclagem e gerando um problema de saúde pública.
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Iniciativas que trazem esperança
Apesar dos desafios, o webinar destacou projetos que estão fazendo a diferença. O programa Glass is Good (ABRABE), com 15 anos de atuação, e o Ecoa Circular (ABIVIDRO), que oferece educação ambiental gratuita para escolas, mostram o compromisso do setor.
Em regiões remotas como a Amazônia, onde a reciclagem tradicional é inviável, inovações como o uso de vidro moído misturado à argamassa ganham força. Essa abordagem questiona se a solução para um país continental como o Brasil deve ser a mesma da Europa, propondo usos secundários que resolvam o problema ambiental localmente, sem os custos do transporte de longa distância.
O caminho para a circularidade do vidro no Brasil é complexo e exige uma orquestração sistêmica. O encontro deixou claro que não há solução única, mas a necessidade de um conjunto de ações: políticas públicas eficazes, inovação, investimentos em infraestrutura e, acima de tudo, uma profunda mudança cultural por meio da educação. A jornada é longa, mas a colaboração entre os diferentes atores do setor acende uma luz de esperança.
