A Economia Circular é cada vez mais reconhecida como uma rota de fuga para a policrise ambiental, social e econômica que vivemos. No entanto, a transição de um modelo linear para um circular exige uma mudança profunda, não apenas nas práticas de mercado, mas também nos valores da sociedade. 

Nesse cenário, qual é o papel da academia? Para abordar essa questão, o CCD Circula convidou o professor Dr. Flávio de Miranda Ribeiro, Conselheiro do Pacto Global da ONU e Embaixador do Movimento Circular, para uma reflexão sobre como a universidade pode e deve liderar essa transformação.

Ensino, pesquisa e extensão como tripés

A partir da análise do tripé constitucional de ensino, pesquisa e extensão, Ribeiro argumentou que a universidade tem uma missão fundamental em cada uma dessas frentes. Na extensão, trata-se de levar o conhecimento para além dos muros acadêmicos, apoiando empresas e o setor público. 

Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que, embora 60% das indústrias já conheçam o termo “economia circular”, a atuação ainda se concentra na reciclagem, considerada o “primo pobre” do modelo. Nesse sentido, a academia pode ajudar as empresas a avançarem para estratégias mais sofisticadas, como o reuso e a remanufatura, por meio de diagnósticos e projetos-piloto baseados no método científico.

No âmbito das políticas públicas, a contribuição acadêmica é igualmente crucial. O Brasil tem visto avanços regulatórios importantes, como a Estratégia Nacional de Economia Circular e a Lei de Incentivo à Reciclagem. A universidade pode aprofundar esse debate, realizando análises de impacto regulatório e propondo critérios técnicos para a implementação de políticas, garantindo que as decisões sejam baseadas em fatos e dados, e não em narrativas. 

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Formação dos profissionais do futuro

No pilar do ensino, o desafio é formar uma nova geração de profissionais com as competências e habilidades que a economia circular demanda. Isso vai além de uma única disciplina; requer uma revisão curricular que incorpore a visão sistêmica e o pensamento de ciclo de vida de forma transversal. Ribeiro destacou a necessidade de desenvolver tanto soft skills, como colaboração e comunicação, quanto novas áreas de conhecimento técnico, como ecodesign, materiais sustentáveis e tecnologias de recuperação.

Para isso, são necessárias novas formas de ensino que conectem o aprendizado à realidade, com o aluno como ator ativo em projetos colaborativos e imersões práticas. A criação de cursos de requalificação profissional e a atualização constante dos currículos são essenciais para atender a uma demanda que o mercado já apresenta, mas para a qual ainda há poucos profissionais qualificados. 

O livro didático e os cursos online gratuitos sobre o tema, desenvolvidos por Ribeiro em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), são exemplos de ferramentas para massificar esse conhecimento.

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Por uma Ciência brasileira para o Sul Global

Na pesquisa, embora a economia circular tenha entrado tardiamente na agenda brasileira, há um enorme potencial para o país se tornar uma referência para o Sul Global. Isso significa desenvolver pesquisas que respondam aos nossos desafios estruturais específicos, como a desigualdade social e a falta de infraestrutura, mas que também explorem nossas oportunidades únicas, como a bioeconomia e a riqueza de nossas tecnologias sociais, a exemplo do modelo de inclusão de catadores.

Flávio de Miranda Ribeiro concluiu sua fala com uma provocação: se a universidade não assumir a liderança desse processo de transformação, quem o fará? A resposta a essa pergunta definirá não apenas o futuro da economia circular no Brasil, mas também o papel do país na construção de um mundo mais justo e sustentável. A tarefa exige generosidade, colaboração e o desprendimento do ego, resgatando o papel nobre da ciência como motor do progresso social.

Quer entender mais a fundo essa discussão? Assista à íntegra do Circula Talks no nosso canal do YouTube e junte-se a essa conversa fundamental para o futuro do nosso planeta!